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Entrevista especial
com o professor Anselmo Santos
" A saída para
o País passa pelo enfrentamento da dependência externa"
Um dos pontos altos
do 50º Encontro do Coletivo Jurídico promovido
pela Federação, em Caxias do Sul, foi a participação
do doutorando em economia pela Unicamp, Anselmo Luis
dos Santos. Aqui você lê um pouco de seu pensamento
a respeito da atual conjuntura brasileira, as reformas
pretendidas pelo governo Lula. A entrevista, concedida
à assessoria da FTIARS, é exclusiva para o jornal O
Parceiro. Boa leitura!
O Parceiro - Qual
a sua ligação com os movimentos sociais e com o partido
dos trabalhadores?
Anselmo Luis dos Santos - Há vários anos leciono
no Centro de Estudo Sindicais e de Economia do Trabalho
da UNICAMP, principalmente para sindicalistas e militantes
de outros movimentos, e assim fui estreitando relações
com os alunos e com as atividades de militância que
desenvolviam, contribuindo nas formas que podia e aumentando
o meu envolvimento com o movimento sindical e popular.
Minha ligação com o PT é antiga como simpatizante. Mas
nos últimos anos filiei-me ao Partido e tenho dedicado-me
à militância em Campinas e região.
O Parceiro - O sr
disse no último encontro jurídico da Federação, que
considera hoje um dos períodos mais nefastos, resultado
da política econômica implementada nos últimos anos,
sobretudo na década de 90, pelo ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso. Cresceu o desemprego, a desagregação
social e , por conseqüência, a marginalidade. Como o
senhor analisa sociologicamente o atual período?
Anselmo Luis dos Santos - Os efeitos nefastos
do neoliberalismo são conhecidos há muito tempo. Na
realidade, é a expressão mais pura do capitalismo e,
como tal, somente pode apresentar sua enorme perversidade
e injustiça social. A construção de sociedades com menor
pobreza e desigualdade social foi um processo singular
e historicamente determinado em alguns países de capitalismo
avançado, quando num contexto de avanço do socialismo,
dos efeitos da grande crise de 1929 e das duas guerras
mundiais, do acirramento da guerra fria, o fortalecimento
da classe trabalhadora e preocupação estratégica da
burguesia resultou num contexto favorável à implementação
de políticas de controle, intervenção e regulação do
capitalismo. Foi somente nesse período, principalmente
de 1945 a meados dos anos 70 que afirmou-se ideologicamente
a regulação do capitalismo, o combate ao liberalismo.
Nos anos 80 e 90, o retorno da força do liberalismo
no mundo estreitou as chances de desenvolvimento nas
nações mais pobres. Portanto, a deterioração social
e do mercado de trabalho dos anos 90 no Brasil e em
várias nações subdesenvolvidas e também desenvolvidas,
somente pode ser vista nesse processo de afirmação da
mais pura lógica do capitalismo. Como dizia Marx, no
capitalismo todos os métodos que desenvolvem a produção
são métodos de dominar, explorar e mutilar os trabalhadores,
reduzindo-o a um fragmento de ser humano. A destruição
social que presenciamos no Brasil é ainda pior porque
também a afirmação da lógica liberal no mundo desenvolvido
é aquela que bloqueia o desenvolvimento dos países periféricos.
Liberalismo e imperialismo é a expressão mais forte
da pura lógica capitalista e da exploração e empobrecimento
dos mais "fracos".
O Parceiro - Qual
a saída para a Economia do País ? E por que o presidente
Lula não implementa essa político de mudanças efetivas
?
Anselmo Luis dos Santos - A saída para o País
passa pelo enfrentamento da dependência externa. O que
se denomina atualmente de vulnerabilidade externa não
é muito diferente dos problemas recorrentes de balanço
de pagamento que as nações em desenvolvimento enfrentam
há muitas décadas. O que houve foi um agravamento dos
problemas de balanço de pagamento em função das políticas
liberais de abertura comercial e financeira e privatizações.
Com isso, elevou-se o endividamento externo e a dependência
de fluxos de capitais externos para equilibrar o balanço
de pagamento "cumprindo os contratos". Ou seja, a era
liberal de Collor e FHC representou um brutal processo
reacionário, ampliando a dependência externa que o Brasil
tentava diminuir com o seu processo de industrialização.
Agora é preciso desmontar esse quadro de enorme dependência,
que tornou a política econômica brasileira refém dos
interesses rentistas do grande capital financeiro internacional
e nacional, que impedem a implementação de políticas
de crescimento. Sem elas a deterioração social é rápida
e rumamos para a Barbárie. O governo Lula terá que enfrentar
essa questão. É preciso ganhar apoio internacional e
interno para pressionar por mudanças que permitam autonomia
na política macroeconômica.
O Parceiro - O sr
é a favor da regulamentação do estado como forma de
fortalecimento da economia?
Anselmo Luis dos Santos - É a única forma de,
nos marcos do capitalismo, amenizar a perversidade da
lógica capitalista. A regulação do Estado significa
colocar a política e a sociedade controlando o mercado,
reafirmar os valores e as necessidades humanas sobre
a pura lógica de acumulação de lucros, colocar a economia
a serviço da sociedade, evitando que sociedade seja
organizada para atender os objetivos de acumulação de
capital e não os objetivos de seu próprio desenvolvimento.
O Parceiro - O "
senso comum" de uma parte da sociedade afirma que o
serviço público não funciona por culpa do servidor.
O senhor concorda?
Anselmo Luis dos Santos - O serviço público enfrenta
um conjunto de problemas, cujo principal é a tentativa
dos grandes interesses privados em destruí-lo, seja
para reduzir o gasto social e a tributação que não querem
pagar, seja para apoderarem-se de esferas que eles acreditam
poder acumular capital. Os servidores são contratados
pelo Estado para servir à Nação e à população. Qualquer
problema nessa área deve ter como responsável o Estado
e os governos e não os servidores. Como as políticas
dos últimos 12 anos foram liberais, contribuíram para
enfraquecer e reduzir o papel do Estado, daí o enfraquecimento,
a desvalorização e as tentativas de desmoralização dos
servidores públicos. Mas a destruição do serviço público
não é somente a deterioração das condições de trabalho
e de vida dos servidores; é também a do conjunto da
população trabalhadora que mais depende do serviço público,
da escola pública, da saúde, da previdência e assistência
social, da segurança e justiça, das políticas urbanas.
Por isso, é uma política de afirmação do liberalismo
e, como tal, é contra os interesses dos trabalhadores,
que sem condições de ter acesso a serviços sociais básicos
pelo mercado, como têm os ricos e a classe média, têm
suas condições de vida pioradas com a desvalorização
do servidor e, portanto, do serviço e das políticas
públicas.
O Parceiro - O sr
defende a criação de novos empregos a partir do serviço
público e o fortalecimento do Estado. Quais são os dados
que o senhor dispõem sobre o sistema previdenciário
europeu, sobretudo em países desenvolvidos como a Suécia?
]
Anselmo Luis dos Santos - A lógica capitalista
não leva ao pleno emprego a força de trabalho, cria
até mesmo nas etapas de crescimento econômico uma oferta
de trabalho redundante, com a qual o capitalismo reforça
suas bases de dominação e exploração. A intervenção
do Estado contra essa lógica, busca transferir das mãos
dos capitalistas a riqueza que, no processo de produção
e especulação, eles retiram dos reais produtores de
riqueza, para os trabalhadores. É essa lógica que pode,
no capitalismo, reduzir a dominação, a pobreza e a desigualdade
social. E ela expressa-se em políticas públicas e sociais,
na criação de uma esfera pública onde a pura lógica
capitalista não pode penetrar. Assim, a distribuição
dessa parcela da riqueza assume outros critérios e atende
à lógica das necessidades sociais. Com o seu desenvolvimento
amplia-se os serviço público e a proteção social, com
os quais também têm que aumentar o emprego público.
Isso significa reduzir os espaços de atuação da lógica
do capital. Por isso, os capitalistas são contra a regulação,
a intervenção, porque reduz o enorme poder que o capital
lhes concede. Seja pela elevação do emprego fora da
lógica da acumulação de capital, reduzindo a parcela
da população desempregada e assim, reduzindo também
a força de dominação e exploração capitalista. Seja
porque um conjunto de bens e serviços básicos são oferecidos
sem que os trabalhadores tenham que se curvar às perversidades
da lógica do mercado, que afirma a meritocracia, a eficiência,
o individualismo, o utilitarismo e a diferenciação e
desigualdade social.
O Parceiro - O sr
considera a proposta de reforma tributária e previdenciária
do governo Lula reacionária?
Anselmo Luis dos Santos - No caso da previdenciária
não tenho a menor dúvida. Vai no sentido contrário de
reconstrução do serviço público, de afirmação da importância
do Estado e das Políticas Públicas e, portanto, de uma
estratégia de maior atuação e intervenção do Estado
na lógica capitalista. E dessa forma enfraquece a perspectiva
do desenvolvimento brasileiro, pois sem Estado e políticas
públicas e sociais, não somente avançaremos em termos
de crescimento econômico e muito menos na área social.
Por isso, essa reforma previdenciária é contra os interesses
não somente dos servidores públicos mas do conjunto
dos trabalhadores brasileiros. Esses devem combatê-la
não apenas por solidariedade aos servidores, mas por
seus próprios interesses, pois a desvalorização do servidor
é a desvalorização dos serviços e das políticas sociais
que tanto interessam aos trabalhadores. Combater essa
reforma previdenciária é, nesse momento, combater os
interesses que querem perpetuar o liberalismo no Brasil,
fazer negócio com as contribuições dos trabalhadores,
por meio de fundos privados de pensão e enfraquecer
o Estado e as políticas públicas. O combate à reforma
previdenciária deve ser realizado no mesmo processo
de combate ao neoliberalismo, à dependência externa,
aos interesses do grande capital financeiro internacional
e nacional. Deveria ser uma campanha que culminasse
numa forte oposição à ordem financeira internacional
e a essa política econômica neoliberal, que é a raiz
dos principais problemas brasileiros contemporâneos.
O Parceiro - É
pertinente colocar na agenda do país as reformas previdenciária,
tributária e sindical neste momento?
Anselmo Luis dos Santos - Essa era a agenda liberal
de FHC. A agenda dos trabalhadores deveria ser outra:
crescimento e desemprego zero. Com isso, as condições
de trabalho melhorariam, o desemprego seria eliminado,
os salários subiriam, a arrecadação tributária e o gasto
social cresceriam, assim como a arrecadação da previdência
aumentaria com a elevação dos salários, com a formalização
dos vínculos trabalhistas e com o estancamento dos processos
de terceirização, informalização e precarização do mercado
de trabalho brasileiro. As reformas poderiam ser feitas
num segundo momento, com muita calma e discussão, pois
são profundas questões que não podem ser definidas sem
a participação efetiva dos interessados. E a tônica
deveria ser outra: incorporação dos mais de 50 milhões
de trabalhadores que não têm acesso à proteção social,
avanço urgente na reforma agrária e na efetiva democratização
do crédito, a estruturação de uma reforma tributária
que desse maior progressividade aos sistema, ou seja,
cobrar proporcionalmente mais dos ricos e não dos pobres
como se faz na estrutura atual.
O Parceiro - O que
o movimento social poderia fazer para mudar o rumo das
reformas ? Como podemos fazer isso, sem desgastar o
governo ?
Anselmo Luis dos Santos - A melhor saída agora
me parece mesmo uma grande mobilização de ruas, das
massas e a greve geral no serviço público, com um forte
apoio dos trabalhadores do setor privado, reconhecendo
que a reforma é contra o serviço e as política públicas
e contra os interesses de todos os trabalhadores. E
assim, também é contra o fortalecimento do Estado e
da perspectiva de intervenção e regulação pública do
capitalismo brasileiro, e não somente contra os servidores.
E o desgaste do governo é algo que não depende do movimento
e nem é um problema do movimento; é algo que depende
do próprio governo, de reconhecer que essa reforma da
previdência nem mesmo os ultra liberais da era tucana
conseguiram aprovar, de reconhecer que há numa expressiva
parcela de petistas uma visão distorcida e equivocada,
acerca da natureza e da importância do serviço e dos
servidores públicos, que é incoerente com uma proposta
de fortalecimento das políticas públicas e do Estado
brasileiro. Nesse sentido, o movimento é importante
até mesmo para corrigir essas distorções e eliminar
visões preconceituosas de portadores de uma visão privatista,
nascida em muitos casos de uma realidade na qual uma
vanguarda de sindicalistas consideravam apenas as relações
entre o capital e o trabalho e desenvolveram posições
contra o Estado e contra alegados "privilégios" dos
servidores públicos, porque não compreenderam até agora
as questões mais importantes que envolvem o Estado,
as políticas públicas, a regulação pública e a valorização
do serviço e dos servidores públicos.
Assessoria de Imprensa
da FTIARS
Jornalista: Paulo Otávio (Editora Enfoque)
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