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10 DE JANEIRO DE 2004 CORRUPÇÃO EMPRESARIAL


Le Monde: Inquérito Parmalat revela escândalo sem precedentes

Por Jean-Jacques Bozonnet,correspondente em Roma do jornal francês Le Monde

A investigação sobre a Parmalat revela um escândalo sem precedentes. Cada dia traz seu novo lote de revelações sobre a extensão das malversações. Sob certos aspectos, estas superam as da Enron. O governo de Silvio Berlusconi retém, por razões internas de sua base, o anúncio de uma reforma das autoridades reguladoras.

Inquérito sobre lavagem de dinheiro em Luxemburgo, auditores sob investigação... O escândalo Parmalat enriqueceu-se, na quarta-feira, dia 8, com novas descobertas. O governo de Silvio Berlusconi tentou, em um primeiro momento, uma intervenção de emergência para tranqüilizar a opinião pública, mas numerosas vozes se elevaram, na oposição e na maioria, assim como em círculos econômicos e sociais, defendendo que se aproveite a crise para um reexame geral das regras de relacionamento entre os diferentes agentes do mercado

.A Câmara de Deputados e o Senado decidiram criar, na semana que vem, uma comissão parlamentar de inquérito conjunta, para lançar luz sobre as distorções reveladas pelo caso parmalat. As conclusões devem ser conhecidas até o fim do mês. A verdade é que o escândalo Parmalat ilustra, até os limites da caricatura, a falta de transparência e os múltiplos conflitos de interesses nas relações entre os bancos, as agências reguladoras e as empresas.

Contudo, malgrado seu desejo de reagir o quanto antes e lançar "a revisão de um sistema de controles herdado do passado para evitar a repetição dos escândalos e restabelecer a confiança em nosso sistema", Berlusconi resolveu ter paciência. Seu ministro da Economia, Giulio Tremonti, desistiu de apresentar ao Conselho de Ministros, já na sexta-feira, dia 9, seu projeto de lei visando criar uma autoridade única de controle dos mercados e da poupança. O exame do texto foi adiado por pelo menos uma semana, para aplainar as dificuldades políticas que esta reforma provoca no seio da própria maioria governamental.

Face a um escândalo sem precedentes, e ao descontentamento dos pequenos aplicadores, já apanhados pelos crash do grupo agroindustrial Cirio, o governo não deveria esperar muito para apresentar sua reforma. "Nós só temos um único mercado financeiro, é preciso haver uma única autoridade de controle", declarou Tremonti ao Financial Times na segunda-feira, dia 5, estimando que "todo mundo concorda" com a mudança da atual situação.

Reguladora no banco dos réus

A Itália possui atualmente quatro organismos de controle - a Consob, fiscalizadora da Bolsa italiana, o Banco da Itália, a autoridade de controle dos seguros (Isvap) e a dos fundos de pensão (Covip). Tremonti nunca ocultou sua preferência por um sistema próximo do Financial Services Authority (FSA) britânico. Mas, assegura, "não somos dogmáticos". Seu projeto inicial, que retira do Banco da Itália a maioria das suas competências em matéria de controle, transferindo-as à nova autoridade, que já deve assumir todos os poderes da Consob, esbarra na oposição da Aliança Nacional e da UDC, dois partidos da base do governo.

Estes desejam, tal como a oposição de centro-esquerda, a manutenção das prerrogativas do banco central. Está em jogo o futuro do diretor do Banco da Itália, Antonio Fazio, um homem poderoso, com cargo vitalício, que nunca regateou críticas à gestão do ministro da Economia. Os dois não se bicam e a Liga do Norte, partido xenófobo de Umberto Bossi, do qual Giulio Tremonti é simpatizante, repentinamente pediu a cabeça de Fazio. Nos últimos dias, a Liga teve a adesão de Sandro Bondi, coordenador da Força Itália, partido de Berlusconi.

Até a caricatura

As medidas em preparação pelo ministro de Políticas Comunitárias, Rocco Buttiglione, para ajustar a Itália a certas diretivas recentes da União Européia, especialmente em matéria de controle dos "abusos do mercado", serão fundidas no projeto global de reforma a ser apresentado em 13 de janeiro. Deve-se chegar a um reforço dos poderes da Consob, a autoridade de fiscalização da Bolsa, que adquirirá maiores poderes de investigação. Porém o Banco da Itália pode conservar o controle dos bancos, enquanto se limita a duração do mandato de seu diretor (fala-se em cinco anos). A autoridade da concorrência também poderia ser agregada ao dispositivo

.A cada dia a investigação mostra novos envolvimentos. Quinta-feira, os magistrados de Milão puseram sob inquérito, por "falsa comunicação" e "agiotagem", dois peritos contábeis da empresa de auditoria Deloitte & Touche, encarregada de certificar as contas da Parmalat. Lorenzo Penca e Maurizio Bianchi, dois diretores de outra empresa de auditoria, a Grant Thornton, tinham sido presos em 31 de dezembro de 2003 e permanecem detidos em Milão, por "certificações falsas".

Também na quinta-feira, a nova direção da Parmalat encerrou sua colaboração com as duas firmas.

Os bancos não escapam à suspeição generalizada. Após as revelações do ex-diretor financeiro do grupo Parmalat, Fausto Tonna, os investigadores se interessam pela maior parte dos estabelecimentos de créditos italianos, e numerosas instituições estrangeiras. "Os bancos não podiam deixar de imaginar o que se passava", resumiu um investigador.

Os responsáveis pela apuração caminham de surpresa em surpresa. Acabam, por exemplo de descobrir que o responsável pelo serviço telefônico do grupo era também... diretor-geral de três dezenas de filiais da Parmalat.


 

 
 
 
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